ACADEMIA PARA MEDÍOCRES
(Gabriel Ganley)
Um fisiculturista morreu por conta do uso de anabolizantes. É desolador, mas não choca, por uma série de fatores. A começar pelo fato de todos termos acompanhado o caminho para a morte via celular. Ele era um influenciador digital, compartilhava tudo nas redes: dietas, treinos, suplementações, rotinas e muito mais. Há vídeos dele ingerindo mais de 20 comprimidos de medicamento, há repercussão sobre a relação com os esteroides anabolizantes em outros canais, e houve o próprio Gabriel, em entrevista, reconhecendo que perderia 10 ou 15 anos de vida por conta disso. Na realidade, perdeu todos.
Academia não é para mim. Não foi falta de tentativas. Não sei se é o ambiente, o exercício ou a comunidade, mas não é para mim. Há alguns anos, em uma das tentativas de frequentar o espaço, fui com meu irmão e um amigo nosso, o Gordão (que não é mais gordo). Gordão tomou um pré-treino e me perguntou se eu queria, pois renderíamos mais no treino. Eu tomei. Não sei o que aconteceu, mas passei mal: euforia, ansiedade, dificuldade para dormir, muito suor e perda de apetite. Não foi uma experiência legal. Não estou fazendo terrorismo, apenas dizendo que esse universo é próximo a mim, assim como imagino que seja próximo a você.
Sei que entre o Gabriel morrer e eu tomar um pré-treino existe um abismo de diferença. Mas, na minha visão, esse abismo é borrado; a maioria das pessoas não o vê e cai nele. Gabriel era um profissional do ramo, um adulto de 22 anos que tomou, deliberadamente, suas decisões. Mas era influenciador digital e, como todos, objeto de desejo. A vida do influenciador, seus recortes de sucesso, de conquistas e os demais conteúdos postados causam a ilusão de uma vida “perfeita”, ou ainda plena, mesmo que com dificuldades. Quantos outros jovens de 22 anos não se inspiraram em Gabriel para ter uma vida mais saudável? E quantos jovens de 22 anos, por conta de figuras como ele, não estão hoje usando anabolizantes? E quantos vão morrer ainda este ano? Ou, mais catastrófico ainda, quantos menores de idade estão ingerindo substâncias para copiar o ídolo?
Há um mercado de influência em torno do wellness, ao redor dessa vida saudável e do culto ao próprio corpo. Não me recordo de quem disse, mas li que estamos retornando à era grega com esse culto absoluto ao próprio corpo — não como modelo, mas como obrigação. Estamos assistindo, nas redes, ao boom de procedimentos estéticos, canetas de emagrecimento, dietas milagrosas, treinos revolucionários e todo um movimento ao redor desse templo sagrado que é o corpo. Em academias de bairro, vemos os mesmos assuntos de academias para atletas. Hoje, quando o assunto é o mundo fitness, vemos que a “pessoa normal” que vai à academia é impactada por esse frisson tanto quanto o atleta de alto rendimento.Penso que deve haver uma separação mais clara entre o fazer profissional e o amador. Nem todos vamos posar para ser o novo Davi de Michelangelo do século XXI.
Hoje profissionalizamos tudo. Todas as nossas ações devem atingir o pico máximo de eficácia; caso contrário, não prestam para nada. Fazemos academia não mais para promover melhora ao corpo, mas para atingir o shape, reduzir taxas de gordura e aumentar a massa magra, bem como diminuir o número na balança e as medidas de braço e cintura. Não corremos mais para sentir o vento bater no rosto ou dar uma passeada enquanto mexemos o corpo; corremos para atingir o pace, para correr 5 km em menos de 20 min, para conseguir fazer uma meia maratona no final do ano. Não escrevo mais para aliviar as angústias da minha alma, mas para publicar best-sellers. De modo geral, estamos profissionalizando tudo o que fazemos e achando normal elevar cada vez mais a régua de tudo.
Quando o assunto é o mundo fitness, o buraco é mais embaixo. Estamos falando diretamente de autoestima e da visão que o sujeito possui de si mesmo, bem como da forma como ele acredita que o mundo o percebe. Somos os maiorais em potencial — e isso é um erro. Precisamos voltar a ver valor na mediocridade. Mas, infelizmente, se a ação não for acompanhada de um resultado mensurável, não vale nada. “Se não abaixar meus números na bioimpedância, não valeu a pena meus treinos...” Oi? Infelizmente, hoje vemos valor apenas quando há resultados diretos e palpáveis, de preferência mensuráveis e comparáveis.
Guiño, um grande amigo, gosta de se exercitar. Ele corre e faz longas caminhadas. Ao perguntar sobre métricas, recordes e números, ele responde com um sincero e poético: “não sei”. Afinal, não importa de fato. A grande maioria de nós busca exercícios físicos com expectativas diferentes: emagrecer, ficar mais forte, ter mais resistência, fortalecimento muscular, entre outros. Mas, embora as expectativas sejam diversas, o resultado para a maioria será semelhante: melhora no sono, na disposição e sutis mudanças físicas. Isso é mediocridade no exercício físico — e precisamos entender que está bom. Não somos competidores de alta performance. Temos nossos trabalhos (geralmente exaustivos) e não seremos atletas.
Superar a nós mesmos é uma delícia, mas precisa ser apenas isso: uma delícia, não uma obrigação. O mundo fitness e wellness tem se tornado, a cada dia, um segundo trabalho. Temos obrigações e metas a bater. Como profissional da psicologia, é estranho imaginar um espaço que deveria promover bem-estar sendo tão rígido e exigente. É difícil imaginar um lugar com tantas exigências sendo o mesmo que fará uma pessoa se sentir bem consigo mesma. O mundo fitness é movido pela insatisfação. Quanto mais mergulhados nesse universo, mais impactados somos pela necessidade de evoluir — quando, muitas vezes, o que precisamos é apenas mexer o corpo e desligar a mente. Para a esmagadora maioria das pessoas, o melhor que uma atividade física pode proporcionar é isso.
Repito: não somos profissionais nem nunca seremos. Os exercícios físicos devem apenas nos gerar bem-estar, não cobrança.
Gabriel morreu não por se cobrar demais, mas por estar no centro de um circuito movido pela insatisfação. A morte dele choca porque, um dia antes, tudo o que ele fazia para acarretar essa morte era venerado — mas isso não vai mudar. Gabriel era patrocinado por empresas que fabricam os produtos que o mataram. Essas empresas, por sua vez, contratarão um novo garoto-propaganda, que tomará as mesmas dezenas de comprimidos para divulgar um cupom, fazendo você acreditar que tomar os mesmos comprimidos vai te colocar ali, no pódio dos vencedores. Até o próximo Gabriel morrer. Até o próximo cliente do Gabriel morrer. A empresa vai contratar outro. A roda continuará girando pelo lucro, não importando quantos cadáveres serão necessários — ainda que cadáveres “no shape”.
Gabriel era um competidor. Você não é. Não se compare com influenciadores. Se você se sente insatisfeito com seu corpo, pense: essas soluções que o mundo oferece vêm dos mesmos lugares que te fazem se sentir insatisfeito. A empresa do Mounjaro precisa que os clientes desejem emagrecer para vender mais. As empresas de suplementos também, as academias também, a indústria da moda também. O motor de vendas é o auto-ódio. Para você, que não é competidor, o exercício serve para promover uma melhora gradual nas funções corporais, ao mesmo tempo em que alivia a mente. Exercite-se, claro. Cuide do seu corpo e da sua autoestima, mas sem entrar em espirais de cobrança que não têm fim, ou melhor, cujo único fim possível é o do Gabriel.
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